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Entrevista: “Seja por fome ou fuzil, há uma autorização explícita do governo federal para a morte do nosso povo”

Por: Mulheres do PSOL

No mês da Consciência Negra e da luta pelo enfrentamento à violência contra a mulher, a deputada federal, líder do PSOL na Câmara, aponta que é preciso construir pontes seguras para mulheres negras ocuparem a política.

Neste mês de novembro há dois temas que trazemos como centrais para as nossas lutas, o enfrentamento ao racismo e a violência contra as mulheres. Como é levar estes temas no parlamento e no próprio corpo?

Talíria Petrone – Sempre falo que a política institucional é um não-lugar para as mulheres negras, porque política é um espaço de poder e espaço de poder é um espaço não entendido para mulheres negras. Política é também espaço público, e o lugar público não é entendido como um lugar para nós. E se não é entendido como um lugar, isso é muito violento. Esses lugares se tornam violentos, hostis, poucos seguros. E é uma violência que se manifesta em diferentes camadas. Eu não me lembro a quantidade de vezes em que fui barrada na Câmara, por exemplo. Não foi uma, duas ou dez vezes. Na minha posse, eu usava um broche de deputada bem gigante e a segurança falou “Você vai para onde?”, “Cadê seu convite?”, e precisou vir uma mulher branca, assessora minha na época, para explicar que eu era deputada, não bastava eu dizer que era deputada. E ela não fez isso por mal,  fez porque o racismo estrutura o Brasil. O racismo institucional é parte do racismo estrutural em um país que teve mais de três séculos de escravidão. Foram inúmeras as vezes em que fui barrada na porta da Câmara, barrada na porta do plenário, para além de outras violências como tentativas de silenciamento. Já fui chamada de louca, de barraqueira, de burra, de favelada no sentido pejorativo. Isso é muito hostil, para além das violências que são decorrentes da atuação pública. Nas redes sociais, já recebi ameaças de morte, xingamentos explicitamente racistas, coisas como “Tinha que morrer à paulada”, é muito duro. E o pior disso, é que como somos poucas nestes espaços, esse estranhamento vai se multiplicando e você acaba não conseguindo dar a visibilidade necessária para as pautas que são fundamentais. Se tem poucas mulheres negras que encampam a luta antirracista, as pautas que envolvem a violência policial, que mata os filhos de mulheres negras, o aumento de licença maternidade, pautas que tratam de reparação histórica para a população negra, também acabam sendo invisibilizadas. É uma experiência violenta, mas também uma experiência muito potente, porque também tem esse outro lado que é parte da mesma moeda. É tão duro, e tão violento, que somos poucas, e isso evidencia a urgência de sermos mais de nós nesses espaços. A gente está vivendo um tempo em que há muita dinamização dos movimentos negros, eu acho que inclusive o movimento mais dinâmico na atual conjuntura, é o movimento antirracista. A Coalizão Negra por Direitos é um exemplo disso. Então você tem uma visibilidade dos movimentos negros que têm tensionado também os espaços intitucionais a terem uma bancada antitracista mais forte e mais organizada. 

A violência política tem sido um embate cotidiano na sua vida, especialmente após o assassinato da Marielle. Como é lidar com isso? Como isso afeta a sua militância e suas lutas?

Talíria Petrone – Há uma urgência da gente enquanto partido tratar como prioridade o tema da violência política. Nós somos o partido que teve Marielle Franco executada, e quase quatro anos depois nós ainda não sabemos quem mandou matar Marielle. Nosso partido, as mulheres desse partido, as mulheres negras desse partido, o Brasil, e o mundo não tiveram a resposta dessa execução. E nós somos o partido que tem quase todas as mulheres negras, LBTs ameaçadas de morte em diferentes dimensões, e isso é um horror. Eu lembro que quando era vereadora eu ia de bicicleta ou de ônibus para a Câmara Municipal, e naquela época já tinha uma série de ameaças que chegavam pelas redes, e a gente não dava a devida atenção a elas. E hoje, olha a dimensão que se tornou. A gente tem um governo Bolsonaro que autoriza, estimula e que legitima essa violência. Você tem supremacistas brancos saindo do armário. Você tem a deep web como lugar para organização de neonazistas. Eles já existiam, mas era um submundo desencorajado. O bolsonarismo em curso autoriza essas práticas, e isso muda nossa vida radicalmente. Hoje na minha experiência, que infelizmente não é uma experiência individual, temos a identificação de grupos supremacistas brancos planejando meu assasinato na deep web, tem a milícia em um território do Rio de Janeiro, tem o ódio aleatório no parlamento e nas ruas. Aí a situação é morar em outro estado, sem uma rede [de apoio], sem ter espaço para compartilhar os cuidados da minha pequena, é não ir à padaria sem estar em um carro blindado com agentes me acompanhando. É uma mudança muito radical para a vida de mulheres negras que disponibilizam seus corpos para a luta. Então a tarefa é sermos mais de nós, mas é também construirmos redes de cuidado e segurança para que nós possamos ocupar a política, seguras, felizes e livres, porque nossa vida também é roubada de nós quando disponibilizamos nosso corpo para a política. A gente precisa construir essas estratégias de cuidado e de segurança, e isso precisa ser prioridade do nosso partido e do Estado brasileiro, por meio do TSE, das Secretarias e dos Ministérios, que eu sei que não é uma prioridade, mas precisa ser. Não há democracia possível num país que já tem uma democracia muito frágil, que nunca chegou plenamente a territórios de favelas e de periferias para o corpo negro. Nunca  teremos uma democracia completa se todo mundo não puder participar do jogo democrático, político, de forma igualitária. Infelizmente isso é o que acontece hoje.

Hoje você é a nossa líder da Bancada do PSOL na Câmara. Como você acredita que devemos construir a política para que mais mulheres negras ocupem este espaço

Talíria Petrone – É muito importante que o PSOL tenha uma mulher negra líder da Bancada Federal, no centro da política brasileira, para o conjunto da luta. Muito me honra ter a oportunidade de tocar essa tarefa. Me honra e me desespera, pois também concilio isso com a maternidade de uma pequena, o que está sendo muito desafiador, mas é a tarefa para ter mais de nós. Precisamos ter financiamento dentro dos partidos, para os setoriais de negros e mulheres, estimulo dos partidos a encontros de negros e mulheres. Isso não é dividir a classe como muitos pensavam, porque somos a classe trabalhadora brasileira. Não é possível pensar a classe trabalhadora no Brasil sem a dimensão de gênero e raça, não estamos na Europa do século XIX, na porta da fábrica, a classe concreta no Brasil é heterogênea, é negra, mulher. É preciso ter orçamento, política, espaços para acumulação de política, um programa que não aceite a separação do debate de gênero, classe e raça verdadeiramente antirracista, e de enfrentamento ao sexismo de forma estrutural, e depois de eleitas e ocupando espaços de direção, criar formas de cuidar das mulheres que ocupam espaços de poder. Precisamos ter estratégias de autocuidado, e estratégias partidárias para que essas mulheres não quebrem, isso não é um detalhe. Estímulos para que a gente ocupe o poder de forma segura, esse é o ponto de partida. Temos avançado enquanto partido, o PSOL é o partido que tem a bancada federal majoritariamente feminina, quase metade da bancada de negros, é um partido que tem investido nos seus quadros de negros, mulheres, que tem cotas nas direções.

Como você vê as perspectivas políticas para o próximo período em 2022? Tanto no aspecto da luta dos movimentos sociais quanto institucionais?

Talíria Petrone – Realmente acredito que os movimentos negros e indígenas têm sido os principais porta vozes do enfrentamento ao bolsonarismo e ao Bolsonaro. A principal tarefa desses movimentos e da luta antirracista é derrubar Bolsonaro e enfrentar o bolsonarismo. Para que a gente possa ali na frente reconstruir o Brasil, respirar, e por isso, nesse caminho até 2022 precisamos seguir na luta para o nosso povo vivo. Na luta programática enfrentando este atual modelo de segurança pública. Na luta contra a fome, por vacina, e para derrubar Bolsonaro agora, pelo impeachment. Mas também é tarefa do movimento negro brasileiro e do PSOL trabalhar pela unidade da esquerda para enfrentar Bolsonaro. Isto também é pauta antirracista. Com Bolsonaro no poder a branquitude está autorizada a ser racista, essa é a diferença. Não que não existisse branquitude ou racismo antes, mas há uma autorização explícita do governo federal para a morte do nosso povo, seja a morte pela fome, ou a morte de fuzil. Com Bolsonaro não tem luta antirracista que prospere. Entendo que a principal tarefa do nosso partido é a generosidade e responsabilidade necessária para caminhar pela unidade da esquerda para derrubar Bolsonaro. E lá na frente, retomar o poder para o povo preto para reconstruir o Brasil. E aí não tenho dúvida que sem o antirracismo também não se vai reconstruir o Brasil.

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